A Polícia Federal apontou que integrantes da cúpula da Voepass orientavam funcionários a omitir o registro de falhas e panes apresentadas pelas aeronaves da companhia. Segundo o relatório da investigação, as orientações eram discutidas em um grupo de WhatsApp que reunia dirigentes responsáveis por diferentes áreas da empresa.
Entre os integrantes do grupo estavam o então presidente da Voepass, José Luiz Felício Filho, o gerente do Centro de Controle Operacional (CCO), William Agatz, o diretor técnico, Eric Consoli, e o chefe do CCO, Raphael Limongi de Figueiredo. Os quatro foram indiciados pela Polícia Federal.
De acordo com o relatório, as mensagens indicavam que determinadas irregularidades deveriam ser reportadas somente quando a aeronave retornasse à base principal da empresa, em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. A prática, segundo a PF, fazia parte de uma cultura de omissão de falhas operacionais e técnicas.
A investigação está relacionada à queda do voo 2283, ocorrida em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo (SP). O acidente matou as 62 pessoas que estavam a bordo.
Presidente tinha conhecimento dos problemas
A PF afirma que José Luiz Felício Filho tinha conhecimento de problemas técnicos graves enfrentados pela frota da companhia. Em depoimento, o executivo teria reconhecido que sabia da existência de uma cultura interna de evitar registros de determinadas falhas nos livros de bordo.
Segundo os investigadores, Felício também relatou ter sido alertado ao longo dos anos por diretores da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) sobre esse padrão de conduta entre pilotos da empresa.
O relatório aponta ainda que a Voepass planejava implementar um sistema automatizado para monitorar dados de voo e identificar a repetição de falhas no sistema de degelo das aeronaves. No entanto, segundo a PF, a ferramenta ainda não havia sido implantada quando ocorreu o acidente.
A investigação também destaca que o presidente tinha experiência como piloto da própria companhia e conhecia as características das aeronaves regionais e os riscos relacionados à formação de gelo.
Falhas contribuíram para o acidente
Conforme a Polícia Federal, a tragédia não foi provocada por um único problema, mas por uma sequência de falhas operacionais, técnicas e de manutenção.
A aeronave envolvida era um ATR 72-500 e apresentava problemas conhecidos no sistema de degelo. Além disso, o avião foi despachado para uma rota em que havia previsão de condições favoráveis à formação de gelo, situação considerada incompatível com as condições de operação da aeronave.
A PF aponta que a repetição de falhas sem o devido registro e a prioridade dada à disponibilidade da frota contribuíram para que problemas técnicos permanecessem sem solução adequada.
Ao todo, 16 pessoas foram indiciadas pela Polícia Federal no âmbito da investigação. Entre os envolvidos estão pilotos, despachantes operacionais, profissionais de manutenção e integrantes da diretoria da empresa.
Voepass afirma que segurança era prioridade
Em resposta às conclusões da investigação, a Voepass afirmou que a segurança operacional sempre foi uma prioridade da companhia. A empresa destacou que, ao longo de mais de 30 anos de atuação, adotou protocolos de segurança, manutenção e capacitação das tripulações.
A companhia também afirmou que os pilotos do voo 2283 eram profissionais experientes e devidamente habilitados e que os treinamentos incluíam procedimentos para situações de formação de gelo.
A Voepass declarou ainda que colaborou com as investigações desde o início e que o relatório da Polícia Federal integra uma fase investigatória. A empresa informou que aguardará os próximos desdobramentos do processo e, se necessário, exercerá seu direito de defesa.
O caso continua sendo acompanhado pelas autoridades responsáveis pela investigação do acidente e pela apuração das possíveis responsabilidades relacionadas à tragédia.